ENRIQUE VILA-MATAS LA VIDA DE LOS OTROS 
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Doutor




Vila-Matas y Tavares
Vila-Matas y Tavares



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CONTRIBUCIONES DEL DOCTOR A LA MEDICINA

Trad. de Alejandro García Abreu

CONTRIBUTOS DO DOUTOR PARA A MEDICINA

GONÇALO M. TAVARES

Desaparecer a horas certas, mas para onde?

Sabe-se que Robert Walser era de uma pontualidade excepcional. Considerava a pontualidade uma obra-prima.
Trata-se pois de colocar a delicadeza no ponto certo. Não fazer esperar o outro - arte que deve ser tão valorizada como a escultura ou a pintura. Fizeste o mais belo quadro, sim, mas chegaste atrasado ao encontro com o teu sapateiro. Eis uma falha artística irremediável.
A este propósito, o Doutor Vila-Matas contratou o Doutor Pasavento para averiguar “o que se sentia ao chegar com a máxima pontualidade, mas exactamente com um ano de atraso, a um encontro na Cartuxa de Sevilha”. Uma pontualidade em diferido – semelhante ao som que chega uns segundos depois da imagem correspondente.
Mas o que importa é isto: a pontualidade no desaparecimento. Marcar a hora exacta não de um encontro, não de um desencontro (tu vais por uma rua e eu por outra); mas de um rigoroso desaparecimento. Eis o difícil.
Só quem já desapareceu percebe que é impossível definir com exactidão a hora, o minuto e os segundos em que algo ou alguém desaparece. Porque desaparecer não é apenas deixar de ser visto. No limite, é deixar de se ver a si próprio. (Só tem uma vida boa quem tem um bom esconderijo, dizia o sensato Kierkegaard.)
Desaparecer da frente dos outros requer esforço, mas é possível (o bom esconderijo resolve) – desaparecer diante do espelho, eis o grande obstáculo.

Não se quer sentar na minha cadeira?

Ser grande é saber ceder o seu lugar a outro, escreveu Handke, citado por Vila-Matas. Desaparecer, cedendo o lugar a outro - eis a grandeza deste Doutor Vila-Matas que cede o seu lugar ao colega Pasavento que, por seu turno, o cederá a outro.
Trata-se de uma série de desaparecimentos sucessivos, idêntico a uma série matemática em que uma lógica implacável conduzisse um número grande a números cada vez mais pequenos. Até se atingir o infinitamente pequeno.
Mas como chegar ao zero através de infinitas reduções?
O problema é, pois, este: o infinitamente pequeno dividido ao meio continua a não ser zero. Desaparecer, de facto, não é fácil.
No fundo, o Doutor Pasavento ilustra, em literatura, o dilema sem saída de Zenão.

A mão enorme, o papel minúsculo

Kafka queria continuar existir, mas sem ser incomodado. O Dr. Pasavento também.
A escrita desaparece primeiro através de um método de alturas, tamanhos. A letra vai ficando mais pequena. Se não fores capaz de parar de escrever, pelo menos que os teus textos ocupem menos espaço no mundo. Eis a micro-escrita. Quem escreve muitas letras numa minúscula folha, escreve muito ou pouco? Eis uma questão, apesar de tudo, significativa.
Trata-se de produzir uma escrita Liliputiana.
Podemos até imaginar a mão de um gigante, a mão enorme de um gigante que não pára de se mexer sobre a mesa, segurando no mais velho utensílio da escrita. A mão enorme que escreve letras minúsculas. Eis o génio da redução, dirás.
Michael Issacson, professor de engenharia, escreveu, com um feixe electrónico, num cristal de cloreto de sódio, palavras com dois nanómetros de largura.
Juan de Gurtabay escreveu o Pai-Nosso em castelhano (57 palavras) em 53mm². Em 1930.
No fundo, eis como o escritor desaparece (uma metodologia possível): em 1930 escreve o Pai-Nosso em 53 mm² em 1931 em 52 mm², em 1932 em 51mm², e assim sucessivamente. Aperfeiçoar, simultaneamente, a escrita e o desaparecimento.
Ao mesmo tempo: oração cada vez mais exacta e aperfeiçoamento literário.

O centro do livro

Aos 85 anos, o Doutor Vila-Matas desce do seu cavalo ainda em  movimento, senta-se e escreve um livro em 2mm².
Os leitores protestam. Onde está o livro? Aqui, aponta o Doutor Vila-Matas. E coloca o dedo, com precisão, no centro dos dois mm². (Nesse momento, existe a sensação de que se falhou por 2 mm² a perfeição da escrita, a escrita que desaparece no momento em que aparece.)

Voltemos, então, a esse livro minúsculo, imaginado. A primeira letra localiza-se exactamente no topo esquerdo dos 2mm² e o último ponto final do livro localiza-se exactamente na extremidade direita da base inferior dos 2mm².
No meio destes dois limites: o livro.
A velha exigência de leitores diferentes para livros diferentes dá aqui outro passo. Não apenas novos leitores, novos olhos – eis o que se exige.
É que aquilo que parece um risco mínimo na folha (2mm² de traço involuntário) com olhos atentos e aperfeiçoados verifica-se ser o novo livro de quem quer desaparecer.

Contributos para a medicina (considerações finais)

Há no Doutor Vila-Matas essa atracção pela Patagónia em que existe “uma pessoa por quilómetro quadrado e reina o silêncio” e por esses países em que não se publicam livros.
Mas felizmente o Doutor Vila-Matas é um médico generoso e um inventor reputado – no meio da descoberta de novas doenças (a Angústia do Pasavento (APS), o Mal de Montano (MM), entre outras), consegue manter essa infinita delicadeza Walseriana de procurar nunca incomodar os outros mesmo que os outros sejam portadores de uma guilhotina e o seu pescoço seja o alvo. Provocar danos na lâmina, nada envergonharia mais o pescoço do homem discreto e delicado que quer desaparecer.
Mas o mais importante é o inverso: ainda não foi inventado (e jamais o será) a lâmina capaz de encontrar o sítio onde esta literatura colocou o pescoço.


Prefacio a la edición brasileña de Doutor Pasavento.


Enrique Vila-Matas visto por Los Suicidas
Enrique Vila-Matas
visto por Los Suicidas



El Principito de Saint-Exupéry transfigurado en Arthur Rimbaud
El Principito de Saint-Exupéry transfigurado en Arthur Rimbaud


CONTRIBUTOS DO DOUTOR
PARA A MEDICINA

Gonçalo M. Tavares

CONTRIBUCIONES DEL DOCTOR A LA MEDICINA

GONÇALO M. TAVARES

Desaparecer a tiempo, pero ¿adónde?
Se sabe que Robert Walser era de una puntualidad excepcional. Consideraba la puntualidad una obra maestra.
Se trata, pues, de colocar la delicadeza en el punto correcto. No hacer esperar al otro —arte que debe ser tan valorado como la escultura o la pintura. Hiciste el cuadro más bello, sí, pero llegaste retrasado a la reunión con tu zapatero. Es ésta una falla artística irremediable.
Al respecto, el doctor Vila-Matas contrató al doctor Pasavento para averiguar “qué sentía uno al llegar con la máxima puntualidad, pero con un año exacto de retraso, a una cita en La Cartuja de Sevilla”1. Una puntualidad diferida —semejante al sonido que llega unos segundos después de la imagen correspondiente.
Pero lo que importa es esto: la puntualidad en la desaparición. Marcar la hora exacta no de un encuentro, no de un desencuentro (tú vas por una calle y yo por otra), sino de una rigurosa desaparición. Es esto lo difícil.
Sólo quien ya desapareció sabe que es imposible definir con exactitud la hora, el minuto y los segundos en los que algo o alguien desaparece. Porque desaparecer no es sólo dejar de ser visto. En el límite, es dejar de verse a sí mismo. (Sólo tiene una buena vida quien tiene un buen escondite, decía el sensato Kierkegaard.)
Desaparecer frente a los otros requiere un esfuerzo, pero es posible (el buen escondite lo resuelve) —desaparecer ante el espejo, es éste el gran obstáculo.

¿No quiere sentarse en mi silla?
Ser grande es saber ceder su lugar a otro, escribió Handke, citado por Vila-Matas. Desaparecer, cediendo el lugar a otro —es ésta la grandeza del doctor Vila-Matas, que cede su lugar al colega Pasavento, que, a su vez, lo cederá a otro.
Se trata de una serie de desapariciones sucesivas, idéntica a una serie matemática en la que una lógica implacable conduce un número grande a números cada vez más pequeños. Hasta alcanzar lo infinitamente pequeño.
¿Pero cómo llegar al cero a través de infinitas reducciones?
El problema es, pues, éste: lo infinitamente pequeño dividido a la mitad aún no es cero. Desaparecer, de hecho, no es fácil.
En el fondo, Doctor Pasavento ilustra, en literatura, el dilema sin salida de Zenón.

La mano enorme, el papel minúsculo
Kafka quería seguir existiendo, pero sin ser molestado. El doctor Pasavento también.
La escritura desaparece primero a través de un método de alturas, de tamaños. La letra se va volviendo más pequeña. Si no fueses capaz de dejar de escribir, por lo menos que tus textos ocupen menos espacio en el mundo. Es ésta la microescritura. Quien escribe muchas letras en una hoja minúscula, ¿escribe mucho o poco? Es ésta una cuestión, a pesar de todo, significativa.
Se trata de producir una escritura liliputiense.

Podemos incluso imaginar la mano de un gigante, la mano enorme de un gigante que no deja de moverse sobre la mesa, empuñando la más antigua herramienta de la escritura. La mano enorme que escribe letras minúsculas. Es éste el genio de la reducción, dirás.
Michael Issacson, profesor de ingeniería, escribió, con un haz de electrones, en un cristal de cloruro de sodio, palabras con dos nanómetros de ancho.
Juan de Gurtabay escribió el Padre Nuestro en castellano (cincuenta y siete palabras) en 53 mm². En 1930.
En el fondo, es así como desaparece el escritor (una metodología posible): en 1930 escribe el Padre Nuestro en 53 mm², en 1931 en 52 mm², en 1932 en 51 mm², y así sucesivamente. Perfeccionar, simultáneamente, la escritura y la desaparición.
Al mismo tiempo: oración cada vez más exacta y perfeccionamiento literario.

El centro del libro
A los ochenta y cinco años, el doctor Vila-Matas desciende de su caballo todavía en movimiento, se sienta y escribe un libro en 2 mm².
Los lectores protestan. ¿Dónde está el libro? Aquí, señala el doctor Vila-Matas. Y pone el dedo precisamente en el centro de los 2 mm². (En ese momento, existe la sensación de que la perfección de la escritura falló por 2 mm², la escritura que desaparece en el momento en que aparece.)
Volvamos, entonces, a ese libro minúsculo, imaginado. La primera letra se localiza en la parte superior izquierda de los 2 mm² y el punto final del libro queda exactamente en el extremo derecho de la base de los 2 mm².
En medio de estos dos límites: el libro.
La vieja exigencia de lectores diferentes para libros diferentes da aquí otro paso. No sólo nuevos lectores, nuevos ojos —es esto lo que se exige.
Es que aquello que parece un riesgo mínimo en la hoja (2 mm² de trazo involuntario), con ojos atentos y perfeccionados, verifica ser el nuevo libro de quien quiere desaparecer.

Contribuciones a la medicina (consideraciones finales)
Hay en el doctor Vila-Matas esa atracción por la Patagonia, donde existe “una persona por kilómetro cuadrado y reina el silencio”2, y por esos países en los que no se publican libros.
Pero afortunadamente el doctor Vila-Matas es un médico generoso y célebre inventor. En medio del descubrimiento de nuevas enfermedades —la Angustia de Pasavento (APS), el Mal de Montano (MM), entre otras—, consigue mantener esa infinita delicadeza walseriana de procurar nunca molestar a los otros, aunque los otros sean portadores de una guillotina y su cuello sea el blanco. Provocar daños en la cuchilla, nada avergonzaría más al cuello del hombre discreto y delicado que quiere desaparecer.
Pero lo más importante es lo contrario: aún no se ha inventado (y nunca lo será) la cuchilla capaz de encontrar el sitio donde esta literatura colocó el cuello.

Traducción de Alejandro García Abreu

Los Suicidas, número 6, noviembre de 2010
1 Enrique Vila-Matas, Doctor Pasavento, Anagrama, Barcelona, 2005, p. 359. N. del T.
2 Ibíd., p. 199. N. del T.
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