ENRIQUE VILA-MATAS LA VIDA DE LOS OTROS 
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Foto de Mariana Bettencourt
Foto de Mariana Bettencourt






Pico, invierno 2010






O LEITOR QUE SE PERDEU ENTRE OS LEITORES DE NUVENS

URBANO BETTENCOURT


– É sempre bom regressar ao Pico. Sobretudo quando nunca se saiu de cá.

A voz do outro chegou-lhe como um rumor longínquo e  inesperado. Seria apenas um desabafo sem destinatário   ou uma tentativa de contacto já no limite do tempo? Durante  a viagem ele  mantivera-se entregue ao seu silêncio, a mão direita presa ao braço do assento, numa imobilidade que quase permitia ouvir-se-lhe a respiração. E só agora que o avião bordejava a costa norte da ilha é que vinha  romper o casulo.  No pior momento para Roberto: o vulcão  perfilava-se ao fundo, despido de nuvens, o rendilhado negro dos currais começava a surgir lá em baixo, num tecido  muito mais impressionante do que  o relato de Lídia   deixara antever. «Não percas. São só uns breves minutos de aparição… A extensão daquilo! E o suor de quantos homens? Poderás depois  ver tudo isso de  perto, em terra. Mas  já não será   a mesma coisa.»

E era essa a  impressão que  Roberto queria guardar de imediato. No dia seguinte,   teria tempo de fixar-se na Montanha,   nos seus disfarces e mudanças de humor, no jogo constante das suas nuvens. Desembarcava na ilha pela primeira vez e  na suposição de que era isso mesmo  que ia acontecer. Os seus anfitriões,  pelo menos, tinham-lho assegurado:  «É uma boa altura,  ventos favoráveis, suaves mas constantes.»  Roberto confiara neles. E ali estava,  para participar no I Congresso dos  Leitores de Nuvens.

Entre o aeroporto e a Escola podia ter prestado atenção ao casario debruçado sobre a  estrada, mas a quadrícula  de muros negros continuava a atravessar-se-lhe  na retina. Mesmo assim, ainda reparou numa  placa onde se lia    «Bandeiras». O nome pareceu-lhe um bom presságio e fê-lo pensar em festas, música. Talvez em tempo de vindimas os muros se enchessem de bandeiras,  quilómetros e quilómetros de bandeiras  de todas as cores, e houvesse bailes  em qualquer largo e muito vinho por entre os corpos dos pares já tontos das voltas e  do desejo. «Quando eu era novo, havia aqui muitas festas. Festas, muitas festas.», repetia o taxista no romance   de   Vila-Matas,   como se a convocação obsessiva do passado lhe devolvesse a juventude e o viço.

A Escola chamava-se Cardeal Costa Nunes. Era-lhe de algum modo familiar, graças à pesquisa  que tivera o cuidado de fazer pela net. Mas Roberto sentiu-se perdido. Nem o acolhimento afável o salvaria. A Montanha não se desprendia dele,   espiava-o de todos os lados,   como alguém que  tivesse de  registar cada um dos seus gestos. Como é que se pode suportar  um olhar destes durante uma vida inteira? Em frente, uma breve faixa de terra ameaçada pelo mar do Canal. Se fosse preciso fugir, iria para onde? «Um homem nunca deve chegar sozinho a um lugar que visita pela primeira vez», dissera-lhe Margarida, vários  anos antes,  quando se oferecera para acompanhá-lo a  Londres. Mas agora era demasiado tarde.

Roberto jantou cedo, uma refeição simples, e recolheu-se ao quarto do hotel. Aproveitou para ver os materiais impressos que a organização do Congresso distribuíra a cada participante. Entre eles,  encontrou  um prospecto  que falava de uma sabedoria antiga, a  de Mestre Daniel, um piloto  marítimo que lia  nas  nuvens da Montanha os sinais do tempo,  com o rigor que viriam a ter  os futuros  instrumentos  de previsão meteorológica.  Era o mesmo texto que Roberto lera  em tempos  num livro que lhe tinham   oferecido em dia de aniversário,  Mística e Nuvens do Vulcão do Pico. Este  fora, aliás,  um dos primeiros contactos com a ilha, pelo menos através de um livro daquele género, que articulava as fotos com a linguagem científica e terminava com o  texto poético de um autor  que lhe era totalmente desconhecido.

Anoitecera, entretanto. No outro lado do Canal,  a cidade era  um borrão de luz  sobre um manto azul cerrado que tudo ocupara. Ocorreram-lhe  imagens avulsas, fragmentos de versos,  o  do transatlântico iluminado  ou o do  barco parado que circula sem retórica na vertigem planetária, mas isto era ainda uma prova da incapacidade de Roberto para aperceber-se do  mundo sem o filtro da literatura. Devia ter posto de lado os livros, para poder desembarcar e ver as coisas com um olhar transparente e seu. Mas também para isso era demasiado tarde e o arrependimento de nada lhe servia já.

O cansaço da viagem e  as horas sebentas  dos aeroportos fizeram-no adormecer rapidamente. Atravessou, então,  uma paisagem pedregosa   onde o fogo deixara as suas marcas inapagáveis. Havia  currais e currais a perder de vista, homens e mulheres avançavam lentamente, curvados sobre o chão, a espaços   voavam sobre os muros e cantavam cantigas de que não se ouvia o som; talvez   canções  melancólicas, talvez  cantos de festa, mas era impossível sabê-lo, porque não se via o rosto de ninguém. Nalguns currais, rapazes e raparigas dançavam,  eles seguravam os cestos  com a mão esquerda, com a direita prendiam os corpos delas e aos poucos puxavam-nos para si até se fundirem  na paisagem. Subitamente, Roberto descobriu Lídia e Margarida entre as mulheres. Um homem de longa barba branca e pele curtida pelo sal  aproximou-se e disse-lhe que estava na hora de  fazer escolhas. Como se fosse uma decisão tomada por outro, Roberto murmurou:  Lídia… Pronto, Lídia! Gostaria de ouvir a sua voz vibrar  no cimo da Montanha ao raiar  do sol de um dia luminoso. Pegou-lhe na mão e saíram dali. Quando ela tirou  o chapéu de abas largas que lhe escondia o rosto, Roberto descobriu que trouxera uma desconhecida. Chamava-se Laura, tratava-o por João e dizia-lhe: «quando estiveres indeciso entre duas mulheres, escolhe uma terceira».

Os primeiros sinais do dia entraram muito cedo pela janela  propositadamente deixada aberta por  Roberto. Isso dava-lhe tempo de vaguear pelas ruas, como sempre fazia, à descoberta dos traços que marcam o rosto dos lugares, tentando surpreender em cada esquina  aquela vida miúda e espontânea  incapaz de se furtar ao olhar do outro. O sonho nocturno parecia-lhe agora uma história remota, lida num livro qualquer e vivida por uma personagem    estranha, sem qualquer relação com ele próprio.

O Congresso realizava-se  ao ar livre, embora uma sala envidraçada estivesse pronta para acolher os participantes, em caso de chuva. Um tempo sereno e leve tornava quase incompreensível o movimento  contínuo, embora lento,  das nuvens sobre o vulcão. «A Montanha tem a sua pulsação própria,  junto a ela  há correntes imprevisíveis.», dissera o primeiro conferencista, muito jovem, como quase todos os que Roberto pôde identificar no meio da assistência. «Mas isso é que torna tudo tão  fascinante e obriga a uma atenção redobrada. No fundo, ler nuvens é uma actividade que tem algo a ver com o windsurf: está-se dependente do vento, é preciso conhecer a sua direcção e antecipar as nuvens que se formarão e depois deixar-se ir na onda. E hoje temos aqui condições muito especiais.»

Fora uma espécie de introdução genérica, a que se seguiram intervenções mais especializadas, de natureza histórica algumas, outras do campo da meteorologia,  que apresentavam explicações científicas para a justeza das observações  empíricas de Mestre Daniel. Houve depois testemunhos  pessoais, de quem seguramente  encontrara o seu destino escrito em  nuvens lidas nas mais inesperadas situações e de como essas leituras tinham constituído uma revelação decisiva; um dos depoimentos citava até um autor francês  e dizia que tudo o que nos acontece aqui em baixo já estava escrito lá em cima, nas nuvens. Uns tinham descoberto nas nuvens o seu destino de poetas e outros tinham lido nelas um futuro de aventura por terras e mares estranhos. Havia ainda  quem afirmasse que conseguia decifrar   nas nuvens o perfil daqueles  políticos funestos que nos saem nas urnas de tempos a tempos. No final da tarde e do Congresso, um lavrador e um marinheiro puseram-se a descrever as nuvens,  mesmo aquelas pousadas sobre as ilhas em volta,   e deixaram uma antevisão muito precisa do tempo para o dia seguinte.

E não falharam. Durante a noite a Montanha tinha desaparecido  e uma cinza espessa deixava agora a ilha entregue a si mesma,  com a presença apenas adivinhada das outras duas. Era  uma   experiência a mais, de  natureza diferente. Roberto  pensou em Alice C. Baker:  «Nos Açores tudo é novidade e nada é novo», escrevera ela quase no final do século XIX. Podia adaptar-lhe  a frase e dizer o mesmo do Pico: tudo era novidade para ele e todas as coisas tinham a serenidade de quem ali estava desde tempos imemoriais e ganhara direito a um espaço inviolável. Mas havia  um poeta que já tinha dito isto de forma única, num verso definitivo: «Esta paisagem é um sopro de eternidade».

A caminho do aeroporto, o taxista fez um desvio  para levar Roberto  pela estrada junto ao mar. Havia ainda  muito tempo para o avião…  Era a primeira vez que vinha à ilha?  Então, tinha de passar pela costa, ver os lugares de adegas, as  vinhas, as figueiras.  Ó senhor, eles chegam à ilha e querem  enfiar-se logo nos museus…Aquilo  está tudo morto!
Os arpões já não trancam ninguém, os botes estão ali encalhados,  as baleias são as da televeija... Aqui, sim! As vinhas continuam a crescer em cada ano, as figueiras enchem-se  de figos. E  há gente de um lado para o outro. E também ventanias salgadas  que varrem isto e queimam tudo até às casas lá em cima! Não queira vir cá no Inverno, torna-se  uma ilha muito triste! No Verão, sim, isto ganha outra  vida. Vê-me aquela ermida? As pessoas mudavam-se  para a costa, vinham   trabalhar as vinhas e traziam também a sua fé.

Roberto aproveitou uma inesperada pausa e arriscou: «Quando era novo, havia aqui muitas festas?»

Isso não lhe sei dizer, senhor, não cresci cá. Quem lhe podia dizer alguma coisa é  um fulano ali em baixo que tem uma loja onde vende artesanato e bebidas. Eu, não. Fui  novo para o Canadá, os meus pais queriam livrar-me da guerra no Ultramar. Cresci por lá, por lá fiz a minha vida, casei-me, dei cabo do casamento,  não tive filhos. Quer saber porque voltei tantos anos depois? Não mo pergunte. Acha que teve alguma a coisa a  ver com aquele monte de pedra e areia ali à  direita? Chamar monte a uma montanha  que se perde entre as nuvens…tem a sua piada. É isso, devo ter vindo por causa da Montanha. Na  sala de meus pais havia uma grande fotografia dela, não passava um dia sem olhar  uns minutos  para a nuvem que o fotógrafo tinha apanhado a atravessá-la. Pronto, é assim mesmo. Vim porque a Montanha me chamou.

Mais tarde, enquanto via  a pista desaparecer à sua esquerda,  Roberto julgou ouvir ainda a voz do taxista perdida por entre o  ronco  dos motores. Depois,  quando o avião ganhou estabilidade,  recostou-se no banco e fechou os olhos. Teria de voltar ao Pico,  um dia. Talvez com Lídia. Talvez com Margarida. Quem poderia sabê-lo?

(Texto publicado na revista «Ponto Cardeal», n. º 4. Madalena, Pico, Açores, Escola Cardeal Costa Nunes, Novembro de 2011.)
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