ENRIQUE VILA-MATAS SUICIDIOS EJEMPLARES EN BRASIL
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Coney Island. Foto V-M
Coney Island. Foto V-M


LIÇÕES DE ABISMO

Em Suicídios exemplares, Vila-Matas traça itinerário irônico pelo suicídio

Suicídios exemplares é o quinto livro do catalão Enrique Vila-Matas publicado pela Cosac Naify. Foi escrito em 1991, antes de Bartleby e companhia e O mal de Montano, mas antecipa temas que se tornaram tipicamente vilamatasianos: a atração pelo nada, por desaparecer, as referências literárias, o humor, a febril imaginação.
     Ao contrário do que acontece nas páginas de um Juan Carlos Onetti, com sua quantidade verdadeiramente prodigiosa de suicidas, os personagens que nos guiam pelos dez contos de Suicídios exemplares não se matam. Em Onetti, há também os derrotados que escapam do suicídio por meio da fantasia – personagens que, nas palavras de Vargas Llosa, “inventam para si mundos puramente imaginários nos quais se refugiam e conseguem sobreviver”. No livro de Vila-Matas, no entanto, o que afasta a tentação do suicídio é, paradoxalmente, a obsessão pela ideia de se matar. Parece irônico, e é.
     Se em O mal de Montano, “as doenças são chaves que podem nos abrir certas portas”, aqui é a ideia do suicídio que tem este poder. No conto “Rosa Schwarzer volta à vida”, a protagonista, uma funcionária de museu que leva uma vida monótona, passa o tempo todo imaginando modos de morrer: cometer haraquiri, envenenar-se, atirar-se na frente de um carro. Precisa percorrer este itinerário sombrio, o de um mundo que não lhe parece suficiente, para no fim afastar a ideia de se matar e “voltar à vida”. O personagem de “Morte por saudade”, por sua vez, lembra de quando, na infância, ouviu falar pela primeira vez “de um movimento que às vezes se produzia no homem e que se chamava suicídio” e de como isso o acompanhou por toda a vida. “Em busca do parceiro eletrizante” é a história de um ator decadente que sai à procura de um parceiro para formar uma dupla cômica e voltar a fazer sucesso. Mas descobre que o tal parceiro ideal morreu, só lhe restando o suicídio, para conseguir formar, no além, a incrível parceria. Há contos passados em ilhas inventadas, histórias em que o protagonista morre às vésperas de se suicidar, tramas que se desenrolam em uma sociedade secreta de suicidas.
     Por meio de implacável ironia e histórias cheias de ação, Suicídios exemplares comemora e celebra a vida ao perder-se no labirinto do suicídio. O que prevalece na obra, além da grande imaginação, são o humor, a sutileza, a inteligência. “Sofisticada ou impulsiva, ponderada ou captada no ar em um instante de tédio, a ideia do suicídio aqui nunca é um signo de derrota”, escreve Alan Pauls no texto de apresentação desta edição. “É um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível quando as criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar.”

Solapa. Um texto de Alan Pauls para la  solapa.

Jogar-se ao vazio, estourar os miolos, tomar veneno, eviscerar-se, abrir o gás e meter a cabeça no forno, atirar-se na frente de um carro, deixar-se consumir pela saudade, tornar-se alvo de um relâmpago fulminante... Não há modus operandi suicida que estes contos de Vila-Matas menosprezem ou deixem escapar. Mas seus heróis – os heróis obstinados, lunáticos e incansáveis de Suicídios exemplares – não se suicidam. Flertam com o suicídio, sonham com ele, dão voltas ao seu redor, o calculam e até o planejam meticulosamente, mas jamais o levam a cabo.
     Um deles, Fernando – o apaixonado não correspondido de “Os amores que duram por toda uma vida” –, parece ter mais sorte e chega a se matar, dispara um balaço em si mesmo, mas a história que dá conta de seu suicídio – a única no mundo que o “comprova” – é suspeita, inverossímil, e termina por se desfazer no caldo incrédulo da ficção. Outro, o Mestre de “O colecionador de tempestades”, tem o (prudente) mau gosto de morrer de um ataque do coração dois minutos antes de consumar um suicídio apoteótico, a la Raymond Roussel, no qual, além do próprio suicida, participavam uma cripta, um recipiente cheio de partículas fosforescentes, uma série de fenômenos elétricos deslumbrantes, dez tormentas artificiais, uma doce melodia napolitana e um raio letal. Esses são os dois personagens que chegam mais perto. Como se escorresse, o halo de ironia e fracasso que envolve o desenlace das tentativas ilumina também todas as demais, e nos mostra a lógica de inépcia, renúncia ou incapacidade que a experiência de morrer pelas próprias mãos tem quando quem a coloca em cena é Vila-Matas. 
     De fato, só são exemplares – ou seja: dignos de serem narrados – os suicídios impossíveis, os indefinidamente adiados, os mal-sucedidos, os esquecidos. Na verdade, o que se revela a Vila-Matas é a ideia do suicídio, ou melhor: sua possibilidade, essa faísca de mistério regozijante com a qual o projeto de um morrer original, ou tortuoso, ou sofisticado, ou cruel, acende uma vida apagada e a faz reviver, tornando-a tensa de energia, excepcional, apaixonante, como a corda de aço de onde os equilibristas nos fazem perder o fôlego. Interessa a Vila-Matas, hábil fabulador de “pulsões negativas” (deixar de escrever, desaparecer, não ser ninguém), o modo paradoxal como o suicídio se instala no coração de uma vida e lhe dá sentido, alegria e, inclusive, beleza. A ideia de não conseguir se matar nos faz pensar em incapacidade, fraqueza, impotência radical. E, no entanto, é justamente essa impossibilidade que coloca os personagens de Suicídios exemplares em ação, que os enche de inspiração, humor, ansiedade, adrenalina.
     Sofisticada ou impulsiva, ponderada ou captada no ar em um instante de tédio, a ideia do suicídio aqui nunca é um signo de derrota. É um princípio de potência: algo na vida range, se abre e começa a ser possível – algo desconhecido, que até então não tinha rosto nem forma, e que agora, de repente, parece exercer uma sedução irresistível – quando alguma das criaturas que povoam estas páginas se deixam possuir pela ideia de se matar. Isto é o bel morir segundo Vila-Matas: a deliciosa, a absurda toxicidade estética que um sonho de morte bem sonhado inocula na vida que foi chamado a ceifar.
     Daí que os contos de Suicídios exemplares sejam raivosos, volta e meia sangrentos, quase sempre extremos, mas nunca amargos nem sem esperança. Neles, o suicídio jamais é fruto de uma desistência; é a ideia na qual se encarna a Grande Vontade que anima toda a ficção de Vila-Matas: a vontade de viver uma vida diferente.

El texto original en español de Alan Pauls para la solapa.

Saltar al vacío, volarse la tapa de los sesos, tomar veneno, destriparse, abrir el gas y meter la cabeza en el horno, arrojarse bajo las ruedas de un coche, dejarse consumir por la nostalgia, hacerse fulminar por un relámpago... No hay modus operandi suicida que estos relatos de Vila-Matas menosprecien o pasen por alto. Pero sus héroes —los héroes tercos, lunáticos, infatigables de Suicidios ejemplares— no se suicidan. Coquetean con el suicidio, sueñan con él, dan vueltas a su alrededor, lo evalúan y hasta lo planean meticulosamente, pero jamás lo consuman. Uno de ellos, Fernando —el enamorado no correspondido de “Los amores que duran toda la vida“—, parece tener más suerte y llega a dispararse un pistoletazo, pero el relato que da cuenta de su suicidio —lo único en el mundo que lo “prueba“— es sospechoso, inverosímil, y termina deshaciéndose en el caldo incrédulo de la ficción. Otro, el Maestro de “El coleccionista de tempestades“, tiene el prudente mal gusto de morir de un ataque al corazón dos minutos antes de llevar a cabo un suicidio apoteótico, à la Raymond Roussel, en el que, además del suicida, intervenían una cripta, un bocal cilíndrico lleno de sales químicas luminosas, una serie de fenómenos eléctricos deslumbrantes, diez tormentas artificiales, una dulce melodía napolitana y un rayo letal. Ésos son los dos personajes que llegan más cerca. Como si destiñera, el halo de ironía y fracaso que envuelve el desenlace de ambas tentativas ilumina también todas las demás, y pone al desnudo la lógica de inepcia, renuncia o imposibilidad que la experiencia de morir por mano propia tiene cuando el que la pone en escena es Vila-Matas. En efecto, sólo son ejemplares —es decir: dignos de narrarse— los suicidios imposibles, los indefinidamente aplazados, los fallidos, los olvidados. Y es que lo que en verdad desvela a Vila-Matas es la idea del suicidio, o mejor: su posibilidad. Ese chispazo de regocijante misterio con el que el proyecto de un morir original, o tortuoso, o sofisticado, o cruel, enciende una vida apagada y la reaviva, volviéndola tensa, excepcional, apasionante, como esa cuerda de acero desde la que nos cortan el aliento los equilibristas. A Vila-Matas, fabulador experto en “voluntades negativas“ (dejar de escribir, desaparecer, ser nadie), le interesa sobre todo el modo paradójico en que el suicidio se instala en el corazón de una vida y le da sentido, la alegra, incluso la embellece. Suena mal no ser capaz de matarse; suena a discapacidad, a invalidez, a impotencia radical. Y sin embargo, qué desaforados niveles de actividad desencadena esa imposibilidad de pasar al acto en los personajes de Suicidios ejemplares. Qué revuelo de inspiración y de humor, qué tasas de adrenalina, de ansiedad, de hiperventilación mental. Sofisticada o impulsiva, meditada o capturada al vuelo en un instante de hartazgo, la idea del suicidio nunca es aquí un signo de derrota. Es un principio de potencia: algo en una vida cruje, se abre y empieza a ser posible —algo desconocido, que hasta entonces no tenía rostro ni forma, y que ahora, de golpe, parece ejercer una seducción irresistible— cuando alguna de las criaturas que puebla estas páginas se deja poseer por la idea de matarse. Eso es el bel morir según Vila-Matas: la deliciosa, la demencial toxicidad estética que un sueño de muerte bien soñado le inocula a la vida que estaba llamado a segar. De ahí que los relatos de Suicidios ejemplares sean coléricos, a menudo sangrientos, casi siempre extremos, pero nunca amargos ni desesperanzados. El suicidio, en ellos, jamás es el fruto de una claudicación; es la idea en la que se encarna la Gran Voluntad que anima toda la ficción de Vila-Matas: la voluntad de vivir una vida diferente.

Três preguntas para Vila-Matas

1) Suicidios exemplares foi publicado em 1991, antes de livros como Bartleby e companhia, O mal de Montano, Paris não tem fim. Que Vila-Matas é esse? O que o leitor brasileiro, que conhece suas obras posteriores, pode esperar deste livro?

É um Vila-Matas em estado puro, um livro respeitado até por meus inimigos. Além disso, é um claro precursor de Bartleby e companhia, já que narra histórias de pessoas que se retiram de uma atividade. Também precede Doutor Pasavento [que a Cosac Naify publicará ainda este ano]  porque no conto “A arte de desaparecer” se fala, pela primeira vez em minha obra, sobre o tema de recusar-se a publicar, o medo de sofrer a exposição pública como se fosse uma ofensa; uma sensação de desnudar-se e de humilhar-se como se estivesse diante de uma comissão médica militar uniformizada. Escrevi Suicídios exemplares para me indagar sobre minhas relações com a vida e a morte, sobretudo com esta última, já que da janela do sexto andar, onde moro, a possibilidade do vôo se oferecia muito facilmente. Lembro que, enquanto eu escrevia estas histórias – tendo em conta que, geralmente, me identifico sempre com os personagens do livro que estou escrevendo –, sentia um certo temor de provar minhas asas e me matar.

     2) No início de um texto de A volta ao dia em oitenta mundos, Cortázar se pergunta: “quem nos resgatará da seriedade?” O suicídio, um tema sombrio por excelência, em Suicídios exemplares é tratado com humor, uma sutil ironia.

Tinha medo que fosse um livro que conduzisse ao suicídio, e temia até mesmo ser acusado judicialmente por incitar as pessoas a tirar a vida com as próprias mãos. Mas aconteceu o contrário. Comecei a receber cartas de leitores que eram suicidas em potencial, e que adiaram a decisão de se matar depois de terem lido o livro e terem caído na risada com algumas das histórias, ou com alguns dos finais dessas histórias.

     3) Em Suicídios exemplares, há um forte componente narrativo. Há tramas, histórias envolventes. Borges, no famoso prólogo que escreveu para A invenção de Morel recupera e tenta, a seu modo, driblar a afirmação de Ortega y Gasset: “hoje em dia, dificilmente será possível inventar uma aventura capaz de interessar a nossa sensibilidade superior”. De Suicídios exemplares a livros como Doutor Pasavento, houve mudanças no modo de encarar a trama, a narrativa, a aventura?

Não perco de vista a narração de histórias, a trama. Mas, em meus últimos livros, essas tramas foram invadidas pelo ensaio, pela reflexão. Algo como um “pensamento narrado” ou “ensaios narrados”. Tenho procurado sempre mudar. Me aborrece muito me repetir. Encaro como uma evolução. E conto com leitores fanáticos pela minha primeira fase (Suicídios exemplares, Hijos sin hijos, Extraña forma de vida), às vezes até contrários a minha vertente mais reflexiva (Montano, Pasavento). Em Exploradores del abismo, acho que consegui combinar as duas vertentes. Mas é isso: não gosto de me repetir.
     Chris Shaw – há muitos anos o engenheiro de som preferido de Bob Dylan – conta que, ao fim de um show, se aproximou de Dylan e, referindo-se à interpretação de It’s Alright Ma que acabara de ouvir, quis saber se alguma vez o músico tinha voltado a tocar a versão original da música. Dylan o olhou e disse: “Bom, você sabe, um disco não é mais que o registro do que você estava fazendo naquele dia em particular. E ninguém gostaria de viver o mesmo dia uma e outra vez, não?” A anedota não só expõe uma crença artística, mas um modo de vida. E isso me faz pensar não apenas na necessidade que sempre tive de modificar tudo o que se apresenta como original, e também na angústia que sinto como escritor quando alguém me fala sobre uma página, um capítulo ou um livro publicado há anos. Isso acontece frequentemente quando se apresenta um romance em um país estrangeiro e se tem que aparecer em público, como se tivesse acabado de escrevê-lo e, além disso, assinar em baixo de tudo que ali se disse. Escrevemos precisamente pelo motivo contrário, para ir modificando nossos originais. São situações muito incômodas e, em certas ocasiões, beiram o pesadelo quando se vê que o outro se fortalece na crença de que se é o mesmo do que quando, horas ou anos atrás, escreveu aquilo. Escrevo para não viver o mesmo dia outras vezes. Como Dylan é sábio.

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